A voz da mulher: como foi transar depois de ser assediada sexualmente por 5 anos

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Sempre mencionamos aqui que queremos que esse blog seja escrito por mulheres para mulheres. Agora vamos colocar isso em prática. Recebemos essa história de um leitora que pediu para não ser identificada, mas gostaria de compartilhar sua vivência para, quem sabe, ajudar outras mulheres que já passaram pela mesma situação.

“Semana passada tava rolando um texto na internet de um cara que relatou como foi transar com uma vítima de estupro. Tinha até achado interessante de primeiro momento, mas agora quero relatar o outro lado da história. Como foi a minha experiência de transar depois de ser assediada sexualmente por 5 anos.

Obviamente surgirão questionamentos como “por que você não denunciou?”, “poderia ter contato pra alguém”, etc. Mas quando você tem 10 anos de idade e é constantemente ameaçada caso abra a boca, não pensa em denunciar porque acredita naquelas ameaças. E eu cresci moldada a esse medo que me travava. Finalmente, aos 15 anos tomei consciência de que isso teria que parar, por mais que as ameaças se tornassem verdadeiras, eu preferiria isso do que continuar com aquela vida.

Talvez eu tive um pouco de “sorte” por não haver penetração, mas vocês não sabem como é terrível ter seu corpo tocado e violado durante 5 anos, servindo como alvo de masturbação de um cara que você odeia.

Voltando ao texto, como vítima de assédio sexual por muitos anos, preciso dizer que a primeira vez após o ocorrido não é fácil. Pra mim foi bem difícil, não consegui de primeira porque comecei a chorar muito. Era inevitável lembrar de tudo o que havia acontecido comigo sem a minha permissão. A minha mente era bombardeada por aqueles momentos horríveis que passei e que não vêm ao caso detalhar aqui. Cada toque, cada contato, cada respiração me lembrava o que tinha acontecido, até porque além de ser a primeira vez após o ocorrido, era também a minha transa de verdade.

O meu parceiro da época soube respeitar e diante da situação, não insistiu, mesmo não sabendo pelo que eu havia passado já que não tive coragem de contar. Esse costumava ser outro ponto difícil para mim. Contar para o meu parceiro poderia acarretar em vários resultados e na época eu não saberia lidar caso a reação dele fosse negativa. Por mais que não seja minha culpa, ainda me sinto culpada, ainda sinto vergonha de ter sido violada dessa forma.

Esse texto é todo baseado na minha experiência pessoal e não é uma regra que se aplica a todas que já foram assediadas. Após dessa minha primeira vez que não deu muito certo, nós tentamos depois de algum tempo e eu consegui não pensar em nada, só naquele momento e no que estava acontecendo. Foi libertador poder transar com quem eu realmente havia escolhido e não ser forçada.

Desde então, não tive mais dificuldades para ter relações sexuais, mas algumas vezes quando estou no ato aquilo volta na minha mente e me assombra por alguns segundos. Eu ainda consigo eliminar as lembranças rapidamente, é como se meu cérebro tivesse uma gaveta especial onde eu guardo todas as coisas ruins para que elas desapareçam.

Cheguei a fazer terapia por um tempo, mas a ideia era trazer tudo à tona para que eu pudesse encarar e superar, só que eu não consigo e nem quero lembrar de tudo o que aconteceu há tanto tempo. Pode ser que eu esteja fazendo errado, mas prefiro manter trancado a 7 chaves do que ter que lembrar desses 5 anos de tortura.

Meu namorado atual é muito compreensivo, ele sabe de tudo porque foi uma das primeiras coisas que contei. Não me arrependo, isso nos aproximou mais e deixou nosso relacionamento mais forte, foi um risco que eu decidi correr. Posso dizer que ele é um dos poucos homens nos quais eu confio e sei que não vai fazer nada que eu não queira.

Nem todas nós conseguimos encontrar alguém assim. Pode ser que no começo ele ou ela seja uma pessoa e depois mude totalmente. Eu optei por arriscar contar e o resultado foi positivo, mas nem todo mundo tem a mesma sorte. Por isso, não se sinta obrigada a contar, apenas conte se for confortável para você expor isso.

Mais uma vez quero frisar aqui que não é uma regra para todas as mulheres que tiveram seu corpo violado e claro que cada uma reage de uma forma diferente com o trauma. Mas eu quis expor isso para que vocês saibam que não estão sozinhas.

A cada 11 minutos uma mulher é violada no Brasil, isso quer dizer que pode acontecer com quem você menos imagina. Ninguém da minha família e dos meus amigos saberiam se eu não contasse. Botar pra fora foi bom porque outras amigas que também sofreram se sentiram confortáveis para falar comigo sobre isso. Sei que não posso fazer muita coisa, mas com certeza dou o meu melhor para poder ajudar de alguma forma.

Até os dias de hoje eu levo alguns traumas comigo. Não consigo confiar em nenhum homem 100%, me sinto desconfortável de ficar sozinha em algum ambiente com um homem mais velho. São coisas que consigo controlar e relevar, mas me amedrontam. Por outro lado, tomar consciência de que o assédio e a violência contra a mulher precisa acabar me fez lutar cada vez mais para ajudá-las.

Nós podemos até chegar a superar, seguir em frente, mas nunca vamos esquecer. É uma marca que fica para a vida toda e temos que aprender a conviver com isso da melhor forma possível. Estamos juntas nessa.”

Se você tem alguma história que queira compartilhar, pode enviar pra gente nos e-mails contato@bloggm.com.br ou rayssa@bloggm.com.br (nesse aqui você fala diretamente comigo). E não se preocupe, se não quiser se identificar, nós postamos como anônimo. Pode ser qualquer depoimento, seja relacionado a prazer feminino ou não. Aqui, a voz também é sua 🙂